Ozempic (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida) são os medicamentos injetáveis mais prescritos para diabetes e emagrecimento no Brasil. Entender a diferença entre eles — mecanismo, eficácia, indicação e efeitos — é essencial para a decisão clínica correta.
Por Dr. Eliseu Rodas · CRM-SP 266.535 · Médico com pós-graduação em Endocrinologia · Atualizado em maio de 2026
Em números — comparativo verificável
Ozempic (semaglutida)
Agonista GLP-1 · Novo Nordisk · EMA 08/02/2018
Mounjaro (tirzepatida)
Agonista duplo GIP/GLP-1 · Eli Lilly · EMA 15/09/2022
SURPASS-2 (Frías JP et al., NEJM 2021) — comparação direta em diabetes tipo 2
Fonte: PubMed · DOI 10.1056/NEJMoa2107519
SURMOUNT-1 (Jastreboff AM et al., NEJM 2022) — tirzepatida em obesidade
Fonte: PubMed · DOI 10.1056/NEJMoa2206038
STEP-1 (Wilding JPH et al., NEJM 2021) — semaglutida em obesidade
Fonte: PubMed · DOI 10.1056/NEJMoa2032183
| Critério | Ozempic (semaglutida) | Mounjaro (tirzepatida) |
|---|---|---|
| Mecanismo | Agonista GLP-1 | Agonista GLP-1 + GIP |
| Frequência | 1x por semana | 1x por semana |
| Indicação principal | Diabetes tipo 2; obesidade (Wegovy) | Diabetes tipo 2 |
| Perda de peso (estudos) | ~14,9% do peso (STEP 1) | ~20,9% do peso (SURMOUNT-1) |
| Genérico disponível no BR | Sim (desde mar/2026) | Não (sob patente) |
| Contraindicação absoluta | CMT / MEN2 / pancreatite | CMT / MEN2 / pancreatite |
A semaglutida (Ozempic/Wegovy) atua exclusivamente no receptor GLP-1 — estimulando secreção de insulina, inibindo glucagon, retardando o esvaziamento gástrico e reduzindo o apetite via sistema nervoso central.
A tirzepatida (Mounjaro) adiciona ação no receptor GIP (glucose-dependent insulinotropic polypeptide), outro hormônio incretínico. O GIP potencializa a secreção de insulina, melhora a sensibilidade do tecido adiposo à insulina e parece ter efeito sinérgico com o GLP-1 na redução do apetite e no metabolismo da gordura. Essa dupla ação é o principal motivo pela qual a tirzepatida produziu perdas de peso maiores nos estudos clínicos.
No estudo STEP 1 (NEJM, 2021), semaglutida 2,4 mg produziu perda média de 14,9% do peso corporal em 68 semanas em adultos com obesidade sem diabetes. No SURMOUNT-1 (NEJM, 2022), tirzepatida 15 mg produziu perda média de 20,9% em 72 semanas na mesma população.
No estudo SURPASS-2 (comparação direta em pacientes com diabetes tipo 2), tirzepatida 15 mg superou semaglutida 1 mg em controle glicêmico e redução de peso. Esses dados levaram a tirzepatida a superar a semaglutida em vendas no Brasil a partir de janeiro de 2026 — respondendo por 57% do mercado de GLP-1 no quarto trimestre de 2025.
Importante: os estudos compararam diferentes doses e populações. A superioridade estatística da tirzepatida não significa que ela seja a escolha certa para todo paciente — a decisão depende de tolerabilidade, indicação, histórico clínico e custo.
Não existe uma resposta universal. A avaliação considera: se há diabetes concomitante (ambos indicados), o histórico de efeitos gastrointestinais (tolerabilidade individual varia), o custo (semaglutida genérica tende a ser mais acessível), a disponibilidade e a experiência prévia com GLP-1. Pacientes que não respondem adequadamente à semaglutida podem se beneficiar da troca para tirzepatida, sempre com acompanhamento médico e retitulação da dose.
A avaliação metabólica e a investigação de causas hormonais subjacentes — como resistência insulínica e disfunção tireoidiana — fazem parte da consulta antes de qualquer decisão sobre GLP-1.
A tirzepatida — agonista duplo de receptores GLP-1 e GIP — tem demonstrado, em estudos clínicos, magnitude de perda de peso e redução de hemoglobina glicada superiores à semaglutida em populações comparáveis. Isso pode favorecer sua escolha em casos com necessidade de resposta mais intensa. Por outro lado, o perfil de efeitos colaterais gastrointestinais é parecido entre as duas — náusea, vômito e diarreia são os mais frequentes em ambas.
A semaglutida tem maior tempo de experiência clínica, maior volume de dados de segurança a longo prazo e mais opções de apresentação (Ozempic injetável semanal, Wegovy para obesidade, Rybelsus oral diário). Isso pode favorecer sua escolha em pacientes que preferem via oral, em situações com preocupação específica sobre segurança a longo prazo, ou em casos com indicação cardiovascular já consolidada em estudos clínicos.
Outros fatores que entram na decisão: disponibilidade e custo da medicação na região do paciente, perfil de comorbidades (renal, hepática, cardiovascular), tolerabilidade individual, preferência sobre dispositivo de aplicação e expectativa de duração do tratamento. A escolha é discutida na consulta — não há critério único que funcione para todos os pacientes.
A avaliação clínica define se há indicação, qual molécula e qual dose — com base em histórico, exames e objetivos individuais. Atendimento 100% online para todo o Brasil.